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Karina Frizzi Psicóloga · ABA

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Aprender dentro da brincadeira

Intervenção precoce, ensino naturalístico, Pivotal Response Treatment e habilidades sociais: o que a pesquisa sustenta — e as perguntas que isso leva para a supervisão.

Por Karina FrizziAtualizado em 15/09/20264 min de leitura11 referências

Em poucas linhas

  • Recomendações de especialistas para crianças autistas com menos de três anos: começar cedo, envolver a família e combinar abordagens comportamentais e desenvolvimentais.
  • Ensinar dentro da rotina e da brincadeira, com escolha da criança e consequências naturais, tem evidência desde os anos 1980 e hoje reúne abordagens sob o nome NDBI.
  • O PRT prioriza áreas pivotais, a começar pela motivação, e coloca a família no centro da aplicação.
  • Em grupos de habilidades sociais, o efeito existe, mas a generalização precisa ser planejada.

01Por que a intervenção precoce importa

Um painel internacional de especialistas revisou a evidência sobre intervenção para crianças autistas com menos de três anos e reuniu recomendações que seguem orientando a prática: começar o quanto antes, envolver ativamente a família e combinar abordagens comportamentais e desenvolvimentais (Zwaigenbaum et al., 2015).

Uma das razões é desenvolvimental. Nos primeiros anos, o cérebro é especialmente sensível à experiência, e a hipótese proposta por Geraldine Dawson é que intervir cedo pode mudar a trajetória do desenvolvimento — não apenas ensinar habilidades isoladas (Dawson, 2008). É uma hipótese de trabalho, não uma promessa de resultado para cada criança.

Cedo não é “quanto mais, melhor”

Começar cedo não autoriza qualquer intensidade nem qualquer formato. Objetivos que façam sentido para a família e respeito ao assentimento da criança continuam sendo critério (Wolf, 1978; CFP, 2025).

02Ensinar dentro da rotina e da brincadeira

Em 1987, Robert Koegel, Mary O'Dell e Lynn Koegel compararam dois jeitos de ensinar fala a crianças autistas não verbais. No formato de mesa, o adulto escolhia os estímulos e o reforçador não tinha relação com a tarefa. No paradigma de linguagem natural, a criança escolhia os brinquedos, as tentativas aconteciam dentro da brincadeira e a consequência era o próprio brinquedo. O formato natural produziu mais imitações e mais falas espontâneas, que também apareceram fora da situação de ensino (Koegel et al., 1987).

Décadas depois, pesquisadoras e pesquisadores de tradições diferentes reuniram abordagens com essa lógica sob um nome comum: intervenções comportamentais desenvolvimentais naturalísticas (NDBI). O que elas compartilham: ensino em contextos naturais, controle compartilhado entre criança e adulto, consequências ligadas à própria atividade, várias estratégias comportamentais e alvos escolhidos pelo momento do desenvolvimento (Schreibman et al., 2015).

Tabela 1. Duas formas de organizar o ensino — uma simplificação didática; na prática, os formatos se combinam.
Formato de mesaFormato naturalístico
Quem escolhe o materialO adultoA criança, dentro de opções preparadas
Onde aconteceTentativas em sequência, em ambiente estruturadoRotina, brincadeira, situações do dia
ConsequênciaReforçador escolhido à parteAcesso à própria atividade
Quem conduzPrincipalmente o adultoControle compartilhado, em turnos

Há também um argumento de generalização. Ensinar com as consequências naturais do ambiente e com exemplos variados está entre as táticas descritas por Stokes e Baer para que a habilidade apareça onde ela vai ser usada (Stokes & Baer, 1977).

03Pivotal Response Treatment (PRT)

O PRT, desenvolvido por Robert e Lynn Koegel, parte de uma pergunta prática: em vez de ensinar centenas de comportamentos um a um, que áreas, quando mudam, puxam mudanças em muitas outras? Essas áreas foram chamadas de pivotais, e a motivação para responder foi a primeira a ser descrita (Koegel et al., 1999). O modelo depois incluiu outras, como iniciativa e autogerenciamento (Koegel & Koegel, 2006).

Os componentes de motivação

  • Escolha da criança sobre materiais e atividades.
  • Turnos — o adulto também joga, o que cria oportunidades naturais de ensino.
  • Reforçadores naturais, ligados diretamente à resposta.
  • Reforço de tentativas razoáveis, não só de respostas perfeitas.
  • Intercalar tarefas já dominadas com tarefas novas.

A família fica no centro: o PRT foi pensado para ser aplicado por pais e cuidadores ao longo das rotinas do dia, com treino e acompanhamento profissional (Koegel & Koegel, 2006).

04Habilidades sociais depois da primeira infância

Para crianças maiores e adolescentes, grupos de habilidades sociais estão entre as intervenções mais usadas. Uma revisão sistemática com meta-análise de 2017 encontrou efeito positivo desses grupos no conjunto dos estudos, com diferenças importantes conforme o tipo de medida e quem avalia (Gates et al., 2017).

Para quem supervisiona, a implicação é direta: habilidade treinada no grupo não garante habilidade usada no recreio. Generalização precisa ser planejada desde o início, com exemplos variados, pares reais e estímulos comuns entre o grupo e a vida da criança (Stokes & Baer, 1977).

05Na supervisão: perguntas para levar ao caso

  1. Quem escolhe? A criança tem escolhas reais na sessão — materiais, brincadeiras, ordem das atividades?
  2. O que está sendo medido? Além de acertos, iniciativas espontâneas, turnos de brincadeira e uso da habilidade fora da sessão.
  3. A integridade cabe no contexto natural? Procedimentos naturalísticos também têm passos, e dados só sustentam decisão quando a aplicação é conferida (Vollmer et al., 2008). O checklist de integridade funciona para eles também.
  4. A família participa de quê? De orientação, ou de prática com observação e retorno dentro das rotinas (Koegel & Koegel, 2006)?
  5. Faz sentido para quem vive o dia a dia? Objetivos e resultados com validade social (Wolf, 1978).

Para registrar a evolução com mudança de fase, use o gráfico de linha. Termos relacionados no glossário: Ensino naturalístico, Intervenção implementada por cuidadores e Pivotal Response Treatment.

Referências

  1. Conselho Federal de Psicologia. (2025). Nota técnica nº 23/2025: Orientações às psicólogas e psicólogos acerca das intervenções comportamentais baseadas na Análise do Comportamento Aplicada no contexto do Transtorno do Espectro Autista. https://site.cfp.org.br/wp-content/uploads/2025/07/nota_tecnica_TEA_WEB.pdf
  2. Dawson, G. (2008). Early behavioral intervention, brain plasticity, and the prevention of autism spectrum disorder. Development and Psychopathology, 20(3), 775–803. https://doi.org/10.1017/S0954579408000370
  3. Gates, J. A., Kang, E., & Lerner, M. D. (2017). Efficacy of group social skills interventions for youth with autism spectrum disorder: A systematic review and meta-analysis. Clinical Psychology Review, 52, 164–181. https://doi.org/10.1016/j.cpr.2017.01.006
  4. Koegel, L. K., Koegel, R. L., Harrower, J. K., & Carter, C. M. (1999). Pivotal response intervention I: Overview of approach. Journal of the Association for Persons with Severe Handicaps, 24(3), 174–185. https://doi.org/10.2511/rpsd.24.3.174
  5. Koegel, R. L., & Koegel, L. K. (2006). Pivotal response treatments for autism: Communication, social, and academic development. Paul H. Brookes.
  6. Koegel, R. L., O'Dell, M. C., & Koegel, L. K. (1987). A natural language teaching paradigm for nonverbal autistic children. Journal of Autism and Developmental Disorders, 17(2), 187–200. https://doi.org/10.1007/BF01495055
  7. Schreibman, L., Dawson, G., Stahmer, A. C., Landa, R., Rogers, S. J., McGee, G. G., Kasari, C., Ingersoll, B., Kaiser, A. P., Bruinsma, Y., McNerney, E., Wetherby, A., & Halladay, A. (2015). Naturalistic developmental behavioral interventions: Empirically validated treatments for autism spectrum disorder. Journal of Autism and Developmental Disorders, 45(8), 2411–2428. https://doi.org/10.1007/s10803-015-2407-8
  8. Stokes, T. F., & Baer, D. M. (1977). An implicit technology of generalization. Journal of Applied Behavior Analysis, 10(2), 349–367. https://doi.org/10.1901/jaba.1977.10-349
  9. Vollmer, T. R., Sloman, K. N., & St. Peter Pipkin, C. (2008). Practical implications of data reliability and treatment integrity monitoring. Behavior Analysis in Practice, 1(2), 4–11. https://doi.org/10.1007/BF03391722
  10. Wolf, M. M. (1978). Social validity: The case for subjective measurement or how applied behavior analysis is finding its heart. Journal of Applied Behavior Analysis, 11(2), 203–214. https://doi.org/10.1901/jaba.1978.11-203
  11. Zwaigenbaum, L., Bauman, M. L., Choueiri, R., Kasari, C., Carter, A., Granpeesheh, D., Mailloux, Z., Smith Roley, S., Wagner, S., Fein, D., Pierce, K., Buie, T., Davis, P. A., Newschaffer, C., Robins, D., Wetherby, A., Stone, W. L., Yirmiya, N., Estes, A., Hansen, R. L., McPartland, J. C., & Natowicz, M. R. (2015). Early intervention for children with autism spectrum disorder under 3 years of age: Recommendations for practice and research. Pediatrics, 136(Suppl. 1), S60–S81. https://doi.org/10.1542/peds.2014-3667E