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Karina Frizzi Psicóloga · ABA

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Fundamentos da ABA: as sete dimensões, a contingência e o método

O que define a Análise do Comportamento Aplicada como ciência: as sete dimensões, a contingência de três termos, a medida, os delineamentos de sujeito único e a generalização programada.

Por Karina FrizziAtualizado em 15/09/20266 min de leitura20 referências

Em poucas linhas

  • ABA é uma ciência aplicada definida por sete dimensões — não um método ou protocolo.
  • A contingência de três termos é a unidade de análise; operações motivadoras explicam mudanças no valor dos reforçadores.
  • Decisão clínica começa por medida confiável: definição operacional, dimensão adequada, IOA e integridade.
  • Delineamentos de sujeito único demonstram efeito por previsão, verificação e replicação.
  • Generalização e manutenção precisam ser planejadas desde o início.

01O que faz uma intervenção ser ABA

ABA não é um método, um protocolo nem uma lista de técnicas. É uma ciência aplicada, e o texto que a definiu continua sendo o melhor ponto de partida: em 1968, no primeiro número do Journal of Applied Behavior Analysis, Donald Baer, Montrose Wolf e Todd Risley propuseram sete dimensões que caracterizam o trabalho analítico-comportamental aplicado (Baer et al., 1968). Quase vinte anos depois, os mesmos autores as revisitaram e as consideraram ainda atuais (Baer et al., 1987).

Tabela 1. As sete dimensões da ABA traduzidas em perguntas para a prática.
DimensãoPergunta para o serviço
AplicadaO comportamento escolhido é socialmente importante para a pessoa e para quem convive com ela?
ComportamentalEstamos medindo o comportamento de fato — e não apenas relatos sobre ele?
AnalíticaHá evidência razoável de que foi a intervenção que produziu a mudança?
TecnológicaO procedimento está descrito com clareza suficiente para outra pessoa aplicá-lo do mesmo jeito?
Conceitualmente sistemáticaOs procedimentos se ligam a princípios do comportamento, e não a truques isolados?
EfetivaA mudança é grande o bastante para importar na vida real?
GeneralidadeA mudança se mantém no tempo, aparece em outros contextos e alcança comportamentos relacionados?

As notas técnicas brasileiras de 2025 partem da mesma premissa ao combater a ideia de um “método ABA” e reforçar a natureza multidimensional da ciência do comportamento (ABPMC, 2025a; CFP, 2025).

02A unidade de análise: contingência

O comportamento operante é analisado na relação entre antecedente, resposta e consequência — a contingência de três termos. A consequência altera a probabilidade futura da resposta; o antecedente passa a sinalizar quando aquela consequência está disponível (Cooper et al., 2020; Moreira & Medeiros, 2019).

Contingência de três termos com operação motivadora Três caixas em sequência — antecedente, resposta e consequência — ligadas por setas. Acima, uma caixa tracejada de operação motivadora envia setas pontilhadas para o antecedente e para a consequência, indicando que ela altera o valor do reforçador e a força do comportamento. Operação motivadora altera o valor da consequência Antecedente ex.: “vamos guardar?” Resposta guarda o brinquedo Consequência atenção e brincadeira a consequência muda a probabilidade futura da resposta diante do antecedente
Figura 1. Contingência de três termos, com a operação motivadora alterando o valor da consequência e a força do comportamento diante do antecedente.

Duas distinções costumam confundir a prática e mudam decisões clínicas. A primeira separa o estímulo discriminativo, que sinaliza disponibilidade de reforçamento, da operação motivadora, que altera o valor desse reforçador (Michael, 1982). A segunda organiza as operações motivadoras em estabelecedoras e abolidoras, pelos efeitos que produzem (Laraway et al., 2003). Uma criança que “não quer mais” trabalhar pelo mesmo item pode estar saciada — e aí o problema não é o ensino, é a motivação.

O glossário reúne esses conceitos com definições curtas e exemplos.

03Medir antes de mudar

Toda decisão analítico-comportamental começa por uma medida confiável. Isso envolve três cuidados (Cooper et al., 2020):

  1. Definir o comportamento de forma operacional, com exemplos e contraexemplos, para que duas pessoas registrem do mesmo jeito.
  2. Escolher a dimensão certa: contagem ou taxa quando importa quantas vezes; duração quando importa quanto tempo; latência quando importa quanto demora para começar.
  3. Garantir fidedignidade: checar a concordância entre observadores numa parte das sessões (Hartmann, 1977) e medir se a intervenção está sendo aplicada como planejada (Vollmer et al., 2008).

A calculadora de IOA e o checklist de integridade ajudam nas duas últimas etapas.

04Delineamentos de sujeito único

Em ABA, cada pessoa é comparada consigo mesma, com medidas repetidas ao longo de condições. A lógica do raciocínio é a da linha de base: os dados de uma fase estável permitem prever o que aconteceria sem mudança; a introdução da intervenção testa essa previsão; e a replicação do efeito — por reversão ou em momentos escalonados — dá confiança de que a mudança se deve à intervenção (Cooper et al., 2020; Kazdin, 2011).

Tabela 2. Principais delineamentos de sujeito único.
DelineamentoComo demonstra o efeito
A-BMostra mudança entre linha de base e intervenção, sem replicação. Útil para monitorar, insuficiente para demonstrar relação funcional.
Reversão (A-B-A-B)Retira e reintroduz a intervenção; o efeito aparece e desaparece com ela.
Linha de base múltiplaIntroduz a intervenção em momentos escalonados entre comportamentos, contextos ou pessoas.
Tratamentos alternadosAlterna rapidamente condições diferentes para compará-las.
Critério móvelMuda o critério em etapas; o comportamento acompanha cada novo critério.

Delineamentos de sujeito único bem conduzidos são reconhecidos para identificar práticas baseadas em evidências (Horner et al., 2005). A ferramenta de gráficos desenha A-B, reversão e linha de base múltipla.

05Análise visual

Os dados são analisados, antes de tudo, olhando o gráfico com método. Dentro de cada fase, observam-se nível, tendência e variabilidade; entre fases, a imediaticidade do efeito, a sobreposição de pontos e a consistência entre fases semelhantes (Ledford & Gast, 2018).

Por isso a construção do gráfico importa tanto: eixos mal escalados, pontos ligados através da mudança de fase ou excesso de elementos visuais atrapalham exatamente essa leitura (Kubina et al., 2017).

06Generalização e manutenção se programam

Em 1977, Stokes e Baer mostraram que a estratégia mais comum para obter generalização era também a mais fraca: ensinar e esperar que ela acontecesse — o que chamaram de train and hope. E organizaram estratégias para programá-la (Stokes & Baer, 1977). Algumas das mais úteis na rotina clínica:

  • Ensinar exemplos suficientes — variar pessoas, materiais, instruções e lugares.
  • Levar a habilidade para contingências naturais — ensinar comportamentos que o ambiente cotidiano vai manter.
  • Programar estímulos comuns — incluir no ensino elementos presentes nos contextos em que a habilidade será usada.
  • Ensinar de forma menos rígida — variar de propósito aspectos não essenciais das sessões.

Na prática, isso significa planejar generalização e manutenção no início do plano, e não quando o critério de domínio é atingido.

07Da evidência à prática

A base de evidências para intervenções derivadas da ABA no autismo é ampla. O relatório do National Clearinghouse on Autism Evidence and Practice, de 2020, identificou 28 práticas baseadas em evidências para crianças, adolescentes e jovens adultos autistas (Steinbrenner et al., 2020); a segunda fase do National Standards Project, de 2015, classificou 14 intervenções como estabelecidas para pessoas com menos de 22 anos (NAC, 2015). Muitas dessas práticas derivam da análise do comportamento, e há meta-análises de intervenção comportamental intensiva e precoce (Eldevik et al., 2009; Virués-Ortega, 2010). Estudos com grandes amostras clínicas também relacionam intensidade e resultados de aprendizagem (Linstead et al., 2017).

Evidência, porém, não se aplica no atacado. Prática baseada em evidências é a integração da melhor evidência disponível com a expertise clínica e com os valores, as preferências e o contexto de quem recebe o serviço — o que inclui ouvir a pessoa e a família e medir se o que funciona nos estudos está funcionando aqui (CFP, 2025).

Referências

  1. Associação Brasileira de Ciências do Comportamento. (2025a). Intervenções baseadas em Análise do Comportamento Aplicada (ABA) para o Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) [Nota técnica nº 1/2025]. https://cdn.abpmc.org.br/uploads/2025/08/NT-TEA-ABA-ABPMC.pdf
  2. Baer, D. M., Wolf, M. M., & Risley, T. R. (1968). Some current dimensions of applied behavior analysis. Journal of Applied Behavior Analysis, 1(1), 91–97. https://doi.org/10.1901/jaba.1968.1-91
  3. Baer, D. M., Wolf, M. M., & Risley, T. R. (1987). Some still-current dimensions of applied behavior analysis. Journal of Applied Behavior Analysis, 20(4), 313–327. https://doi.org/10.1901/jaba.1987.20-313
  4. Conselho Federal de Psicologia. (2025). Nota técnica nº 23/2025: Orientações às psicólogas e psicólogos acerca das intervenções comportamentais baseadas na Análise do Comportamento Aplicada no contexto do Transtorno do Espectro Autista. https://site.cfp.org.br/wp-content/uploads/2025/07/nota_tecnica_TEA_WEB.pdf
  5. Cooper, J. O., Heron, T. E., & Heward, W. L. (2020). Applied behavior analysis (3rd ed.). Pearson.
  6. Eldevik, S., Hastings, R. P., Hughes, J. C., Jahr, E., Eikeseth, S., & Cross, S. (2009). Meta-analysis of early intensive behavioral intervention for children with autism. Journal of Clinical Child & Adolescent Psychology, 38(3), 439–450. https://doi.org/10.1080/15374410902851739
  7. Hartmann, D. P. (1977). Considerations in the choice of interobserver reliability estimates. Journal of Applied Behavior Analysis, 10(1), 103–116. https://doi.org/10.1901/jaba.1977.10-103
  8. Horner, R. H., Carr, E. G., Halle, J., McGee, G., Odom, S., & Wolery, M. (2005). The use of single-subject research to identify evidence-based practice in special education. Exceptional Children, 71(2), 165–179. https://doi.org/10.1177/001440290507100203
  9. Kazdin, A. E. (2011). Single-case research designs: Methods for clinical and applied settings (2nd ed.). Oxford University Press.
  10. Kubina, R. M., Jr., Kostewicz, D. E., Brennan, K. M., & King, S. A. (2017). A critical review of line graphs in behavior analytic journals. Educational Psychology Review, 29(3), 583–598. https://doi.org/10.1007/s10648-015-9339-x
  11. Laraway, S., Snycerski, S., Michael, J., & Poling, A. (2003). Motivating operations and terms to describe them: Some further refinements. Journal of Applied Behavior Analysis, 36(3), 407–414. https://doi.org/10.1901/jaba.2003.36-407
  12. Ledford, J. R., & Gast, D. L. (Eds.) (2018). Single case research methodology: Applications in special education and behavioral sciences (3rd ed.). Routledge.
  13. Linstead, E., Dixon, D. R., French, R., Granpeesheh, D., Adams, H., German, R., Powell, A., Stevens, E., Tarbox, J., & Kornack, J. (2017). Intensity and learning outcomes in the treatment of children with autism spectrum disorder. Behavior Modification, 41(2), 229–252. https://doi.org/10.1177/0145445516667059
  14. Michael, J. (1982). Distinguishing between discriminative and motivational functions of stimuli. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 37(1), 149–155. https://doi.org/10.1901/jeab.1982.37-149
  15. Moreira, M. B., & Medeiros, C. A. (2019). Princípios básicos de análise do comportamento (2. ed.). Artmed.
  16. National Autism Center. (2015). Findings and conclusions: National standards project, phase 2.
  17. Steinbrenner, J. R., Hume, K., Odom, S. L., Morin, K. L., Nowell, S. W., Tomaszewski, B., Szendrey, S., McIntyre, N. S., Yücesoy-Özkan, S., & Savage, M. N. (2020). Evidence-based practices for children, youth, and young adults with autism. The University of North Carolina at Chapel Hill, Frank Porter Graham Child Development Institute.
  18. Stokes, T. F., & Baer, D. M. (1977). An implicit technology of generalization. Journal of Applied Behavior Analysis, 10(2), 349–367. https://doi.org/10.1901/jaba.1977.10-349
  19. Virués-Ortega, J. (2010). Applied behavior analytic intervention for autism in early childhood: Meta-analysis, meta-regression and dose–response meta-analysis of multiple outcomes. Clinical Psychology Review, 30(4), 387–399. https://doi.org/10.1016/j.cpr.2010.01.008
  20. Vollmer, T. R., Sloman, K. N., & St. Peter Pipkin, C. (2008). Practical implications of data reliability and treatment integrity monitoring. Behavior Analysis in Practice, 1(2), 4–11. https://doi.org/10.1007/BF03391722